As elevadas entradas de capital externo e alguns bons fundamentos econômicos valorizam o real frente a outras moedas tidas como fortes (dólar e euro).
O postulado da racionalidade foi para o espaço depois das ondas de investimentos estrangeiros. Palavras inglesas como private equity, venture capital e hedge funds quase se tornaram parte do cancioneiro popular. Qualquer empresa do agronegócio, softwares e prestação de serviços em infraestrutura de norte a sul iniciaram um programa para captar esses recursos.
O excesso de liquidez mundial fez com que parcelas pesadas de recursos migrassem para o Brasil em busca de taxas de retornos mais altas. Ativos foram comprados com requintes de loucura e extravagância. Outros, que sequer eram ativos, mas sim a expectativa futura e incerta de um dia vir a ser um negócio promissor, também tiveram sua parcela de valorização louca e desvairada, fomentada por instituições financeiras ansiosas para repassar os caixas facilmente captados.
Bem se volta ao título deste artigo, crê-se adequado pensar em comportamento seguro frente ao risco. Vários jogadores pensando de forma diversa em prol de seus interesses. Veja o tamanho da matriz.
Nesse momento entra a Teoria dos Jogos. É difícil sistematizar algo não palpável. A teoria dos jogos consiste em matematizar a tomada de decisões. Em uma abordagem mais simplista consiste em pensamento estratégico corroborado por uma análise dos ganhos e perdas, obviamente, em linguagem matemática.
O risco está perto, mais perto do que o desejado. O próprio risco comercial do negócio já é um problema que os administradores devem se concentrar com intensidade, mas o risco de volatilidade é bem mais externo e difícil de administrar do que aqueles decorrentes da escolha dos clientes em último grau.
Todo o capital que foi alocado por esses investidores um dia terá que voltar. O retorno já é caro pela natureza do risco, invariavelmente associado ao risco tomado pelo aplicador. Entretanto, o risco de taxas e de moedas é assombroso. Não precisa ser um economista ou vidente para ver que o problema econômico conseguiu atingir a maior economia do planeta. Atingiu a gregos, pode atingir troianos, goianos, paulistas, paranaenses e por ai vai.
Dessa forma, o zeloso administrador está frente a um dilema. Fazer uma posição de hedge ou ficar exposto a ganhos maiores e o risco de perdas. Não é preciso pensar como um tesoureiro de banco ou administrador de recursos para travar os resultados. Para aqueles não familiarizados com a área financeira, geralmente, os bancos fazem operações nos mercados de futuros quando atingem uma posição de ganho. Exemplo, um banco que tenha uma parcela muito alta de seus ativos atrelados em taxas de juros variáveis realiza a compra e venda simultânea de opções em taxas de juros já definidas. Com isso, limita-se o ganho, mas impede uma perda. Aliás, hedge significa proteção. Pode ser feito de várias formas. Compra e venda de opções, compra e venda de moedas, vendas e compras futuras, etc.
Esse dilema pode ser enfrentado em quase todas as cadeias produtivas e comerciais. Um produtor de milho ou soja pode limitar eventuais perdas em safras futuras, obviamente travando também os lucros, mas em patamares aceitáveis e plenamente satisfatórios.
Veja o revendedor de insumos agrícolas. Como estes são geralmente são atrelados ao respectivo produto agrícola, logo, uma posição no mercado de commodities pode ser um hedge para esse revendedor.
São inúmeras as condições e espaços. Outro exemplo é o dono de confecção que compra tecido que vem do algodão. Também, tem o importador de produtos. Faz sentido travar o dólar de suas operações futuras. A aléa pode ser determinada. É custoso, trabalhoso, mas possível de ser feito. Aliás, há muita gente competente nisso.
Uma empresa que possui uma linha de crédito atrelado ao CDI pode fazer um swap, que consiste em troca de indexadores, com taxa fixa. O swap nada mais é do que a troca da posição entre as partes. Suponha que a cliente tomada em CDI faça um swap com um banco em taxa pré. O Banco passa a assumir o risco do CDI e a empresa o risco da taxa pré. Ao final de determinado período contratado, faz-se a liquidação e apura-se a diferença. Caso o acumulado do CDI tenha sido maior do que a taxa pré, o banco paga a diferença à empresa. Caso a taxa pré tenha sido maior, a empresa paga ao banco.
Aliás, existe um swap interessantíssimo. È o swap de crédito. Consiste na assunção de um terceiro do risco de inadimplência de uma empresa ou banco. Bem, o credor pode realizar uma operação de swap com algum investidor de risco para que na hipótese de inadimplência, o credor seja ressarcido pelo investidor. O risco passa a ser integralmente do credor. Recebe um valor pelo risco. É muito bacana para as mais diversas operações.
O swap também pode ser especulativo. Como independe de caixa, mas sim de risco de crédito e alguns casos em depósitos de margens, pode permitir que investidores façam posições puramente de especulação. Suponha que um aplicador faça um investimento em um CDB pré, mas queira associar um ganho em dólar ou, ainda, cumulativamente em euro. O que for maior. Esse bicho estranho é o swap com dupla curva. O melhor resultado dessas moedas é que será utilizado.
Por outro lado, nada disso é novidade. Muitos desses instrumentos e ferramentas têm centenas de anos.
No campo do direito, a própria estrutura do Estado do Direito vigente é resultado de um jogo. Executivo, Legislativo e Judiciário independentes em um jogo não cooperativo. Essas instituições teriam igualdade de peso e condições e não permitiram um poder único e deixar o cidadão exposto.
No campo das finanças, o direito tem o papel de regular e controlar esses conflitantes interesses. Regular a forma, a atividade e a resolução dos conflitos é a tarefa do operador do direito. Aliás, em algumas áreas o direito praticamente o administrador a ter cautelas e regras para proteger o próprio interesse público constante do Sistema Financeiro Nacional que deve permanecer hígido. Um administrador financeiro que não toma essas cautelas deveria ser no mínimo questionado e obrigado a indenizar os acionistas sobre as falhas em mecanismos de hedge. Mas, veja que nos últimos overshooting do dólar, várias empresas questionaram linhas de empréstimos e financiamentos. Muitas se beneficiaram das taxas menores dos empréstimos e moeda estrangeira, mas se recusavam a determinar um grau de proteção. No final, sobrou para cidadão contribuinte, já que sistema capitalista,todas as externalidades são transferidas ao elo mais fraco.
Ainda no campo do direito, em que pese a economia já fazer uso dos instrumentos futuros há longo tempo, a visão do direito brasileiro parece, com poucos mais brilhantes exemplos, um mix de paternalismo com distribuição forçada . Por isso, pense em equipes técnicas e formas de solução de conflitos céleres e eficientes. Já ouviu falar em arbitragem?
Saudações!
Flávio Maldonado